"recordar é viver"
(ditado popular)
"ao lado do cipreste branco
à esquerda da entrada do inferno
está a fonte do esquecimento
vou mais além, não bebo dessa água
chego ao lago da memória
que tem água pura e fresca
e digo aos guardiões da entrada
'sou filho da Terra e do Céu' "
("A Fonte" - Legião Urbana)
"voltei, pra rever os amigos que um dia, eu deixei a chorar de alegria, me acompanha o meu violão"
(Nelson Gonçalves em "A Volta do Boêmio")
"eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo"
(Roberto e Erasmo em "O Portão")
"os anos se passaram enquanto eu dormia,
e que eu queria bem me esquecia"
(Arnaldo Antunes em "Eu não vou me adaptar")
A emoção e a euforia são grandes. Depois de tanto tempo sem escrever coisas mais pessoais estou de volta. São tantas coisas ao mesmo tempo, muitas delas querendo ser a abertura do texto; algumas querendo estar mais pro meio ou serem a conclusão. Depois de tanto tempo aprisionadas na mente, eles querem sair de qualquer jeito, e estão querendo sair de um jeito meio desordenado, lembrando até um vômito ou uma diarréia. Esperma não, o esperma vai em linha reta, ele sabe onde quer chegar.
As palavras num livro podem fazer todo o sentido do mundo para você, mas quando você está cansado o que se vê são apenas um monte de letras, apenas caracteres pretos em uma folha branca, apenas pixels pretos na tela branca (ou outra combinação de cores, dependendo da configuração usada). Os orientais não se ligam tanto nas palavras, sabem que os ocidentais superestimam o poder concedido a elas.
Quanto ao lance de todas as coisas querem sair ao mesmo tempo eu lembro da sensação de um dia de folga ensolarado, você lembra do conselho daquele filme, "A Sociedade dos Poetas Mortos": "Carpe Diem" (aproveite o dia), e quer fazer tudo ao mesmo tempo agora. Talvez isso seja melhor do que você deixar os dias se passarem iguais e cinzas, mas essa vontade de abraçar o mundo, muitas vezes gera uma angústia paralisante que não te deixa fazer nada.
Tenho 28 anos, até que aproveitei estes 28 anos, mas imagino que não tão bem como deveria ter feito, mas a vida não vem com manual de instruções. Duas das coisas mais importantes da sua vida são uma grande certeza e uma grande dúvida: você sabe que vai morrer, só não sabe quando (o "como" não é tão importante quanto o "quando"). Por isso se eu viver até os 90, o tempo vivido até agora corresponde aproximadamente a um terço da minha vida já vivido, se for até 60, esse tempo vivido até agora corresponde à metade, e esta segunda eu tenho que aproveitar melhor que a primeira (que também não foi tão ruim assim).
Para quase a totalidade das pessoas a resposta da pergunta "quem criou tudo isso" é Deus. Só que desde criança eu me pergunto "e quem criou Deus?". As pessoas se perguntam o que irá acontecer depois da morte, mas imagino que sejam poucas que se perguntem o que aconteceu antes delas nascerem. A sensação que temos do que houve antes de nascermos é apenas um imenso, escuro e silencioso vazio. Será que teremos esta mesma sensação depois de morrermos?
Pensei que lendo filosofia fosse encontrar respostas sérias para as mesmas questões que o esoterismo tenta responder de forma fantasiosa e alegórica (isso inclui a maioria das religiões), mas a filosofia quase sempre se limita a questionar.
Quando precisamos saber a resposta da principal pergunta que temos em nossa vida, esbarramos em um muro em que não conseguimos nem ver onde termina a sua altura. Essa pergunta é: por qual causa, motivo, razão ou circunstância estamos vivos neste momento. Imagino que talvez Hieráclito seja o que chegou mais perto de responder essa pergunta: quando foram chamá-lo para opinar sobre os assuntos da república, ele estava olhando crianças brincar, e ele disse que o jogo das crianças era mais importante que os jogos dos adultos; talvez com base nessa experiência ele diria que o universo não passa de um jogo de Deus. Aristóteles que tentou polarizar tudo que existe no mundo em bom e mal; mas para Hieráclito as noções de bom e mal foram criadas pelo próprio homem, pois se Deus criou tudo, é porque achou que tudo era bom. E nada mais normal que Aristóteles criticasse duramente, chamando Hieráclito de inconseqüente. Como a grande maioria da população viveria sem estes dois conceitos?
Imagino que as idéias de Hieráclito se aproximem das idéias dos anarquistas e dos agnósticos.
Segundo a Wikipedia, "o agnosticismo separa aqueles que acreditam que a razão não pode penetrar o reino do sobrenatural daqueles que defendem a capacidade da razão de afirmar ou negar a veracidade da crença teística".
Somos como peixes a quem nos foi concedido saber que estamos dentro de um aquário, mas será que existe alguma forma de sairmos do aquário? Será que algum dia sairemos?
técnica da escrita automática
não funciona quando você está com sono e/ou cansado (aliás não teria utilidade)... so much...
"My World Is Empty Without You, Baby" (Diamanda Galas)
Baby, você se foi, e se você soubesse o tamanho da falta que você faz, o tamanho do espaço do meu coração que ficou deserto após você desaparecer. Será que você vai saber o quanto penso em você com o meu coração.
Geração Beat (Kerouac) / Hollywood (Charles Bukowski)
Dois livros e dois autores que escrevem sobre temas considerados fúteis: corridas de cavalos, bebidas, conversas banais. Só que como dizem que bebida em excesso embota o pensamento, parece que foi o que aconteceu com Bukowski, esse livro "Hollywood" é bastante árido de idéias, apesar do tema central do livro ser interessante: os percalços para fazer com que o seu roteiro seja transformado em filme.
Niilismo
O niilismo é tão insípido quanto água, e lembra dor de estômago e fígado.
Fela Kuti
Funk africano nervoso! (Funk dos anos 70)
Preciso voltar a fazer música, estou ficando louco. Mas como sempre esbarramos nas dificuldades desse nosso mundo: as responsabilidades e impossibilidades dos outros integrantes, as politicagens dos contatos para conseguirmos um lugar ao sul no mundo do show business.
Morar perto de um cemitério é útil para lembrarmos a nós mesmos que não devemos desperdiçar nossos dias.
Até gostaria de escrever mais, mas agora estou cansado, e além disso estou com sono.
"você desliga se eu ficar muito abstrato"
(engenheiros do hawaii)
... solo de bateria e percussão de 16 minutos do Fela Kuti. (Fela Kuti & Africa 70 - "Ginger Baker and Tony Allen Drum Solo")
ps: logo volto a escrever sobre brega no blog
Quinta-feira, 22 de Maio de 2008
Domingo, 18 de Maio de 2008
"O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford", EUA, Andrew Dominik, 2007



Uma das críticas negativas que mais me deixaram interessado em assistir esse filme foi uma que disse que estava sendo criado um monstro: o western de arte. Trata-se de um filme longo e lento, um faroeste de quase três horas de duração com pouquíssima ação. Então, como pode ser bom? Simples: trata-se de quase que pura contemplação. A fotografia é belíssima, alguém escreveu dizendo que o diretor de fotografia trata-se praticamente do terceiro personagem principal, junto com o Jesse James e com o Robert Ford. Nada mais correto. Em muitas cena ele procurou uma fotografia de encher os olhos: além de belas paisagens, a harmonia também é notável, uma hora é Jesse James todo de negro em seu cavalo preto subindo em um monte cheio de neve, outra é o campo cheio de trigo florescente em contraste com o céu todo azul, a roupa dos personagens em harmonia com tudo isto; em todo filme nota-se um capricho exemplar. Une-se a isso a contemplação de uma análise psicológica de um complicado personagem: o mais famoso bandido norte-americano no seu dia-a-dia. Como mostra o filme, durante muito tempo ele foi tido praticamente como um ídolo. E o seu coadjuvante, que já pelo nome do filme sabemos que irá assassiná-lo, tinha Jesse James como seu maior ídolo. Curiosamente o assassino de John Lennon também o tinha como seu maior ídolo. O que leva alguém matar a quem idolatra? Decepção? A decepção, quando se trata de ídolos, é quase certa. Coloca-se o ídolo num altar como alguém perfeito, mas ele é humano como todos nós. Como se faz essa mudança de sentimentos? Esse filme mostra isso de uma forma bastante interessante.
E, além disso, quem não tem curiosidade de ver um ídolo ou mesmo alguém muito famoso em sua intimidade. O filme mostra a intimidade do maior bandido dos Estados Unidos na época do velho oeste como alguém muito família, com mulher e dois filhos. E paradoxalmente, é alguém que assalta e mata, muitas vezes sem ter tanto motivo.
Li também que o filme mostra o fascínio que temos com os famosos, o que leva a revista Caras ser tão vendida. Robert Ford não coleciona revistas Caras, mas todos os livros de bang-bang com as histórias de Jesse James.
Além do assassino do John Lennon, outro personagem que me veio à mente, e que pode definir bem Robert Ford é Judas Iscariotes. Assista o filme e você vai entender.
Atores que são galãs costumam sofrer muito preconceito, e precisam atuar melhores do que não-galãs para não sofrerem tantas críticas. Por isso, demorei para assistir "Clube da Luta", primeiro porque pelo nome parece filme do Van Damme, e segundo porque um dos personagens principais era feito pelo Brad Pitt. Assisti por insistência de um amigo meu, e os dois preconceitos caíram: o filme e a história são muito bons, e o Brad Pitt atuou bem; além do fato de ter sido produtor de um projeto tão interessante quanto este.
Pois então, Brad Pitt no papel de Jesse James está excelente, conseguiu captar muito bem as nuances psicológicas e o seu comportamento, quase sempre contido, mas certeiro em suas explosões. Recebeu merecidamente o prêmio de melhor ator, não sei em qual competição.
Foi uma pena o filme ter sido alvo de muitas críticas negativas nos jornais e revistas de São Paulo, e ter ficado pouco tempo em cartaz, pois na TV perde-se muito do impacto de sua belíssima fotografia (outro filme recente que também tem ótima fotografia e também trata-se de uma espécie de renovação do faroeste é "Sangue Negro", outro ponto em comum com este é que ambos tem uma ótima análise psicológica).
A trilha sonora, assinada por Nick Cave, é bela, com uma espécie de folk minimalista, lenta e contemplativa como o filme, aliás Nick Cave faz uma ponta no filme como um cantor folk que canta em um bar uma música em homenagem a Jesse James.
Quanto ao filme ser longo, em alguns poucos momentos achei cansativo, mas o fato de ser longo, considero isto uma qualidade, ser lento e contemplativo hoje em dia é algo meio subversivo, e ainda mais se tratando de um filme norte-americano.
Uma das poucas coisas que eu não gostei tanto foi a cena do assassinato, não há muita preparação para o fato, mas por outro lado o jeito que o tiro é filmado é bem legal.
Os fãs de faroeste tradicional provavelmente não irão gostar. Não há muitos tiros, e sim mais uma reflexão melancólica de Jesse James sobre este seu passado.
Nota: 9
Trilha sonora do post: "Defixiones, Will and Testament", Diamanda Galas, EUA, 2004
Requiém Para um Sonho - Darren Aronofsky, EUA, 2000

É impressionante como Darren Aronofsky, estando em apenas seu segundo filme, já fez dois grandes filmes. E mais, o primeiro, "Pi", é uma obra-prima.
Já escrevi anteriormente sobre "Pi", um filme excelente, com uma perfeição estética e climática impressionantes, com a ótima idéia de fazê-lo em preto-e-branco, aumentando assim a sua sensação claustrofóbica.
Assim como "Pi", o "Requiém para um Sonho" também mostra viagens psicodélicas causadas pelo uso de drogas, e isso consiste numa das maiores qualidades de ambos os filmes. Porém, o que o "Pi" tem de singularidade e genialidade estética, o "Requiém para um Sonho" fica apenas no bom.
O filme é colorido, e lembra a estética de filmes dos anos 80, só que não é um "pesadelo" como o Pi.
A história é mais ou menos o seguinte: um filho, junto com a namorada e um amigo, se viciam em heroína e planejam ganhar muito dinheiro adulterando a droga; a mãe é viciada, mas não em drogas, e sim em televisão, e posteriormente em anfetaminas, para conseguir emagrecer para vestir o seu vestido preferido, depois que lhe telefonam dizendo que ela foi escolhida para participar do seu programa preferido, que ela fica diuturnamente assistindo.
A trajetória do filme é de uma espiral descendente, onde o começo é bem-humorado até engraçado, e cada vez as coisas vão ficando piores para cada um dos personagens.
Logo no começo se vê o ridículo da situação do filho que vende a televisão da mãe para comprar droga, ela vai lá e compra de novo, depois ele vai lá e vende de novo.
O filme mostra as viagens, tanto do filho, da namorada e do amigo, quanto da mãe, e as viagens da mãe, causadas pela anfetamina são as melhores: rosquinhas voando do teto de seu quarto, a geladeira que se mexe, e o seu delírio mais forte, e que é, para mim, a cena mais genial do filme: ela está tão alucinada pelas anfetaminas que perde totalmente o senso do que é real e do que é imaginação, e ela imagina que o programa de tv está se passando na sua própria sala de estar.
Você não acredita que as coisas vão ficar tão ruins para os personagens, mas conforme o filme se aproxima do final, é só desgraça.
Talvez a maior sacada do filme seja mostrar que não é apenas o vício das drogas é destrutivo, mas outros como TV são igualmente destrutivos. Por exemplo, quem é viciado em internet gasta muito tempo de sua vida, deixando de fazer e de viver coisas importantes. O filme me fez parar pra pensar quanto tempo da minha vida eu já desperdicei na internet. Nesse ponto, não consegui deixar de me lembrar e de fazer um paralelo com outro filme, que à primeira vista não tem nada a ver com esse, "A Sociedade dos Poetas Mortos". Para mim, a lição mais importante desse filme é aquela frase em latim que o professor ensina aos alunos: "Carpe Diem" (aproveite o dia).
Só é uma pena que este filme não seja esteticamente tão genial e inesquecível quanto "Pi".
Nota: 8
À Flor da Pele - Wong Kar Wai, Hong Kong/França, 2000

Mais um filme oriental cujo motivo costuma ser o mesmo tanto para as críticas positivas quanto negativas: a grande ênfase na fotografia, muito bela. Além disso, alguns críticos acusam de ser um diretor frio ao filmar o amor. Não acho, pode ser contido, mas não frio.
Por eu já ter visto "2046", do mesmo cineasta, as comparações são inevitáveis. Vários elementos são comuns aos dois filmes, mas o "2046" tem fotografia ainda mais bonita, e tem idéias mais ousadas, sendo retrô e futurista ao mesmo tempo, a ação se passa tanto na década de 60 quanto no ano de 2046, há um misterioso trem que leva as pessoas até este ano.
Pois então, tirando estas ousadias de "2046" que são geniais, tem muitas semelhanças com "À Flor da Pele": o tema dos amores desencontrados, o refinamento e a beleza da fotografia, que fazem uma combinação perfeita com músicas que são escolhas certeiras, na maioria boleros cantados em espanhol.
O final é triste e belo. Quem nunca teve uma grande frustração amorosa?
Nota: 8
Fôlego (Kim Ki Duk, Coréia do Sul, 2007)

A cada dia que passa eu fico mais fã do cinema oriental, especialmente do cinema coreano, bastante dinâmico e criativo. Os orientais dão bastante ênfase ao visual, à fotografia, que muitas vezes é estonteante; e também não dão tanta ênfase às palavras, só falam praticamente o estritamente necessário. Um exemplo disso são os discos da Yoko Ono e de criativas bandas japonesas da atualidade como Melt Banana e Boredoms, onde muitas vezes gritos com sons sem sentido ou palavras esparsas são bastante frequentes, em contraponto à maioria das letras de bandas ocidentais, que procuram concatenar idéias muitas vezes complexas em frases.
Li uma crítica negativa, que dizia que o filme era monótono e inferior em fotografia comparado aos outros do mesmo cineasta. Não assisti aos outros filmes dele, mas não achei monótono e achei a fotografia bem criativa, principalmente nas cenas em que ela forra a fria e cinza sala de visitas da penitenciária com lindos e coloridos papéis de parede, cada um representando uma estação do ano (pra mim, essa foi a idéia mais criativa do filme, e a lembrança que eu levarei do filme).
A história é a seguinte: uma mulher que está com o casamento indo mal, seu marido a traindo, se apaixona por um presidiário condenado à pena de morte, que já tentou o suicídio algumas vezes.
Ela começa a fazer visitas para ele, e em cada visita, enche a sala de visitas da cadeia com papéis de parede muito coloridos cada um representando uma estação do ano. É interessante o fato de que um dos responsáveis da cadeia fica como voyeur assistindo o casal, e geralmente quando o negócio começa a esquentar ele toca o alarme para o casal parar, ele fica mais ou menos como o diretor do romance como se fosse o filme, ele decidindo o que vai acontecer em cada visita, cada visita ficando mais forte.
O mais impressionante e o que mais faz pensar no filme é a reação do marido traído ao ver os dois se beijando na sala toda colorida.
O filme não é excepcional, mas é bom. Nota: 7
Trilha sonora do post: Diamanda Galas - You must be certain of the devil - EUA - 1989
Domingo, 11 de Maio de 2008
Filme - "O Sol" (Aleksandr Sokurov, Rússia, 2005)

Não deixo de assistir um filme por causa de críticas negativas, e muitas vezes, isso me deixa mais curioso para assisti-lo. (A unanimidade, muitas vezes, é chata.)
No caso desse filme, a crítica era principalmente pelo ritmo lento e monótono; porém, de que outro jeito poderia ser mostrada a rotina de um imperador japonês em meados da década de 40, sendo um povo que já normalmente é muito voltado a rígidas cerimônias para a maioria das coisas.
Naquele tempo o imperador ainda era visto como uma divindade, que descendia de uma linhagem de deuses, tanto é que esse é um motivo para os kamikazes se encaminharem sorrindo para a morte, pois acreditavam estarem servindo a um deus. Estando nessa condição, sendo servido até nos mínimos detalhes, como se vestir, abrir uma porta, nada mais normal que ele seja uma pessoa bastante alienada, como é observado pelo oficial americano em um determinado momento do filme: "parece uma criança".
Enquanto o seu país era quase que totalmente destruído pela guerra, ele mantém sua rígida liturgia cerimoniosa para quase tudo que faz, e ainda, continua os seus estudos de biologia marinha que são sua paixão, como se nada estivesse acontecendo. Não conhecendo a realidade ao seu redor, ele pede para que suas tropas continuem lutando. Porém, quando é chamado por um oficial do exército norte-americano, e toma conhecimento da destruição em seu país, ele se conscientiza que precisa fazer algo por seu povo, mesmo que isso inclua admitir a perda de sua condição divina.
Aliás, desde o começo do filme ele se sente tentado a fazer isso, sempre questionando os seus criados que argumentam que ele é um deus, que vem acompanhado da resposta, eu sou de carne e osso igual a você, onde está o que me caracteriza ser um deus.
O filme mostra um momento muito importante da história japonesa, e por conseguinte, da história mundial: o imperador deixa de ser deus. Pelo que deu a entender, esse oficial do exército norte-americano, depois de algumas conversas, que estão entre as melhores cenas do filme, simpatiza com o imperador e pede para que o presidente norte-americano não o transforme em criminoso de guerra.
Li em algum lugar que esse filme faz parte de uma tetralogia sobre ditadores: "Moloch", sobre o Hitler, "Taurus" sobre o Lenin, e tem mais um sobre o Stalin que eu não sei o nome. Dizem que o cineasta tentou humanizar estes ditadores, mas dentre estes imagino que o que tem menos o perfil de ditador é o imperador japonês. Foi preciso ter uma grande dose de humildade, coragem e visão para renunciar à sua condição divina, que foi provavelmente a decisão mais importante e acertada de sua vida. Conhecido pelo seu grande senso de orgulho, o Japão pôde assim se render, e assim acabar com a guerra que estava acabando com seu país. Se não fosse esta decisão, as condições do Japão poderiam ser muito diferentes hoje em dia. E por ser o imperador que governou o Japão durante o período em que o país não só se recuperou da Segunda Guerra Mundial, como também se transformou em uma das maiores potências, somos levados a acreditar que fez um ótimo reinado (embora eu não saiba o quanto o reinado de um imperador influa no desenvolvimento de um país).
Um exemplo do orgulho japonês é a seita nipo-brasileira Shindo-Remei, que se algum brasileiro descendente de japones dissesse que o Japão tivesse perdido a guerra, eles colocavam um aviso em madeira na porta da casa da pessoa dizendo que no dia seguinte ela seria morta, e o que eles sempre cumpriam.
Algo que ainda não entendi muito bem na História Mundial é o motivo da aliança entre japoneses e alemães. Com a crença de Hitler que os arianos, a raça branca de olhos azuis, eram a raça pura, e que todo o resto deveria ser exterminado, depois deles dominarem os judeus e a Europa, eles iriam exterminar os japoneses por serem amarelos?
A "lentidão", ao meu ver, muitas vezes é uma boa qualidade de um filme, para termos tempo de apreciarmos, e foi isso que aconteceu com este filme.
Algo que deve ser muito presente na vida de imperadores é a pressão e a solidão. O alívio que o ator consegue transmitir após o imperador renunciar à sua condição divina é marcante, inclusive com o abraço tímido e emocionado em sua esposa.
Em relação à trilha sonora, à previsibilidade de se utilizar peças eruditas, unem-se também os incômodos ruídos em uma longa cena monótona em que ele folheia o seu álbum de família e também o álbum de atores norte-americanos, como se fosse uma ótima peça de noise minimalista torturante.
Nota: 8
Trilha-sonora do post: artista: OOIOO, disco: kila kila kila, Japão, 2004, projeto solo de uma integrante do Boredoms
Domingo, 30 de Março de 2008
"O Segredo de Brokeback Mountain" (EUA - 2005)

Demorei bastante tempo pra assistir esse filme, por preconceito, e por ficar com o pé atrás pelo fato de que quase todo mundo estava falando bem, a Veja chegou a dar 5 cinco estrelas pro filme, quase nunca vi ela dá mais de 4; além do filme quase ter ganho o oscar.
O que eu imaginava era que seria apenas mais um melodrama meloso, com a diferença que os protagonistas seriam dois cowboys gays. E fiquei pensando, por que um cineasta taiwanês iria fazer um filme com uma temática que é tão intrinsecamente norte-americana, os cowboys. Seria para tirar um sarro, dizendo que existem cowboys que são homossexuais. Pois então, aos poucos estas expectativas do filme vão caindo, e o que se vê é um filme que, não importando se você é homossexual ou heterossexual, o que é mostrado é uma bonita história de amor, emotiva e sensível como há tempos não se via no cinema. Não é à toa que ganhou uma eleição como o filme mais romântico de 2005. E quando o filme te inspira fortemente a tomar uma atitude para reaver um amor mal-resolvido do passado, é sinal de que faz parte de uma nobre e rara linhagem de filmes. (Aconselho você ler o anexo no final, e depois continuar lendo sobre o filme)
Talvez esta seja a maior mensagem do filme: ouça o seu coração, ouse, arrisque-se pelo que você ama, tente fazer de tudo para ficar o máximo possível ao lado de quem você ama, não seja orgulhoso ao amar. O olhar de Jack ao ver Ennis ir embora era comovente.
Até mais ou menos a metade do filme, essa minha suspeita, do filme ser um melodrama convencional, ia se confirmando. A parte que mostra eles cuidando das ovelhas e criando uma amizade parece bastante parada, mas com lindas paisagens de natureza, criação de ovelhas, animais, etc. Quando chega a cena da barraca, com fortes insinuações de sexo gay, com beijo e tudo, fico pensando que talvez isso foi colocado no filme apenas para chocar, continuando o filme sendo um melodrama convencional. Mas tudo começa a mudar quando o trabalho deles na Brokeback Mountain acaba e eles têm que
seguir a sua vida normal. E na montanha, onde tudo era natureza, solidão, belezas naturais; são substituídos pelo tédio da rotina de uma vida em sociedade: trabalho, filhos, esposa, compromissos sociais, passar o dia assistindo tv em casa, almoço com os sogros, etc. Isso mostra que o ambiente influe muito para que um amor dê certo ou não. Com minha ex-namorada Alice, tivemos muitíssimos momentos felizes, mas o que me fez apaixonar por ela, foi que ela quando iria me encontrar, abandonava compromissos, trabalho, faculdade, família, e iríamos viajar para algum lugar legal e bonito juntos. Você estar a sós com a pessoa querida em um lugar paradisíaco provavelmente vai fazer você se apaixonar por ela. Mas quando começamos a conviver com as famílias, a história mudou bastante.
No filme, depois de terminarem o trabalho em Brokeback Mountain, os dois cowboys, Jack Twist e Ennis Del Mar se casam com mulheres e ambos têm filhos. Depois de quatro anos eles se reencontram, e inventam histórias para as esposas, como dizer que irão pescar para os dois poderem ficar juntos, e como sempre irão para a Brokeback Mountain.
Uma cena comum a praticamente qualquer casal: Jack viaja 14 horas, vem todo feliz, para encontrar Ennis, ao chegar Ennis diz que infelizmente não poderão ficar juntos aquele final de semana juntos, pois ele terá que ficar com as filhas, já que agora ele está divorciado, e só pode ficar com as filhas uma vez por mês. (Ora, poderiam ter passeado todo mundo junto, era só questão de se comportar, deixando para fazer as coisas mais quentes quando as filhas não estivessem olhando. Já passei por isso com uma garota, viajamos eu, ela, a família dela, e a filha dela; o medo dela era tanto que alguém visse que passamos 3 dias sem nada de sexo, e nem ao menos um beijo!). Jack, que tinha chegado todo feliz, ouvindo músicas animadas, volta chorando e ouvindo músicas melancólicas, vai até o México e paga um michê. (Num casal, todo cuidado é pouco para não magoar o próximo, principalmente quando está todo feliz para te rever, morrendo de saudades).
Outra questão que li num comentário sobre o filme: será que se os dois cowboys morassem juntos eles seriam felizes? Pois eles tentam a todo custo fugir da rotina, e deste jeito criariam uma rotina. É um caso de se pensar.
Uma das principais cenas é a discussão em que Jack reclama da pouca disponibilidade que Ennis tem para vê-lo. Eles passam meses sem se ver, e Ennis quer adiar o próximo encontro de agosto para novembro. Sei como é ter um namoro a distância, passar semanas, meses sem se ver. Quando se ama muito, é uma situação extremamente desconfortável, e é uma situação a que se acostuma, nunca se adapta totalmente.
Li várias críticas sobre o filme, a maioria elogiando, algumas poucos negativas. A crítica daquele blog "A Arca" não conta, pois é um site de nerds, inclusive trabalhei com eles numa empresa, diz que o filme não passa de um melodrama comum, em que só se mudam o tipo de personagens; ora, nerds não contam, nerds se preocupam e sabem mais de Guerra nas Estrelas do que de amor. Outra crítica negativa é que os personagens se preocupam muito com sexo. Ora, por experiência própria digo, que o sexo pode ser uma das principais causas do amor surgir, e além disso, o filme fala muito mais de amor do que de sexo.
E Heath Ledger proporciona uma das cenas mais emocionantes dos últimos tempos, apenas com dois botões.
Nota: 9 (bom, apesar das cenas de beijo e insinuação de sexo gay serem bastante incômodas, isso não tira os méritos do filme)
Anexo: Tem uma garota de quem eu gosto muito desde que eu a conheci. Apesar da forte amizade, nunca conseguimos que isso se transformasse em um namoro, quando eu estava solteiro, ela estava namorando, e quando ela estava solteiro, era eu quem estava namorando; quando ambos estavam solteiros, acabou havendo um desencontro. Depois de um tempo, ela começou a namorar firme, conforme conversa e status no orkut. Chegamos a ficar seis horas seguidas conversando por msn, por telefone ela era toda tímida, o que a tornava mais encantadora ainda. Conforme não mencionei ainda, a distância era um obstáculo, já que eu moro em São Paulo e ela no Rio de Janeiro. Falávamos horas e horas de música (uma grande paixão minha), e ficávamos imaginando nós dois nos amando ao som de Wando, Reginaldo Rossi e Raimundo Soldado. Eu mandava-lhe os trechos mais apaixonados de músicas de Bartô Galeno, subentendendo que era para ela, ela ficava toda encantada. Ela virou super-fã de Raimundo Soldado, passou a indicar para vários amigos.
Ela me falava dos seus namorados, e eu sempre me imaginando o dia que eu seria esse sortudo.
Ela era de um tipo físico que é dos meus preferidos, morena clara, cabelo liso, preto, lábios meio carnudos, descendente de espanhóis.
Por causa de meu amor por ela, mandei uma carta com 12 páginas escritas a mão, mais 3 cds de mp3s, só de música brega, com 8 horas cada um, o que totalizava 24 horas de brega.
Quando comentei para o pessoal do trabalho que eu iria conhecer uma carioca (eu já havia namorado uma carioca antes), que adora música brega, que era morena clara, do jeito que eu gosto, todo mundo me disse: "daí sai casamento".
Mas o desgosto de não termos conseguido nos encontrar quando ambos estávamos solteiros, foi muito triste, e é uma marca que eu carrego até hoje no meu coração. Poderia não ter acontecido mais nada, mas eu precisava conhecer aquela garota pessoalmente.
Apesar de ser uma garota mais nova, eu tinha 26 anos, e ela tinha 18, ela tinha um dos melhores papos que eu já tive com uma garota na minha vida. Ela era inteligente, atenciosa, criativa, e ainda compartilhavamos quase todas as opiniões, o que é muito raro, pois tanto as minhas opiniões como as delas, são opiniões que eu imagino que fogem do lugar-comum, e que também tentam fugir da hipocrisia reinante nesse nosso mundo. Pode ser que lutávamos contra moinhos de vento como Dom Quixote, mas destas nossas conversas é uma das coisas que mais sinto saudades em minha vida.
Lembro a imensa alegria quando, depois de um tempo sem conversarmos pelo Orkut, eu lhe mandava um scrap dizendo que estava com saudades, e ela respondia: "Scan, eu também estava morrendo de saudades". Ela me chamava de pitéu, e eu chamava ela de pitéuzinho.
Sabe aquela música do Legião Urbana que diz: "dos nossos planos é que tenho mais saudades". Pois então... É com lágrimas nos olhos que eu lembro dos planos que fizemos de quando nos encontrássemos, iriamos na Feira dos Paraíbas lá no Rio, tomaríamos Guaraná Jesus de canudinho, nós dois juntos.
Como na última cena do "O Segredo de Brokeback Mountain", o que mais emociona são os detalhes, as lembranças; como naquele clássico do Bartô Galeno, "encontrei no porta-luvas, o lencinho que você esqueceu, e num cantinho bem bordado, o seu nome junto ao meu". Posso garantir que essa é uma das coisas que mais dóem para o personagem da música.
Hoje em dia ela sumiu do Orkut, não me manda e-mail, não telefona, é quase como se ela tivesse morrido, e isso dói demais.
O medo, e como diz o meu amigo João, a frouxidão, é o que existe de pior no ser humano. Nesta época que ambos estavam solteiros, eu ainda estava um pouco enrolado com minha ex-namorada. Deveria ter enfrentado e corrido o risco das coisas darem um pouco errado. Eu iria para o Rio, e correria o risco de encontrar o pai, irmão, irmã ou amigo da minha ex-namorada. E daí? Eu não teria perdido a oportunidade de uma das pessoas mais especiais que já cruzaram o meu caminho nesta vida.
E ela talvez seja a única garota com quem bastasse uma palavra dela para eu namorar, casar e tudo mais.
Assinar:
Postagens (Atom)